Aglaa station… (Parte I)

Aglaa station Khan Market hain!

Foi a primeira vez que entrei no metrô de Delhi, e estava com o Carlos. A estação é atrás do hotel Ambassador, onde ficamos na chegada. E onde estamos agora, faltando cinco dias para a partida.

Sou fã de metrô faz tempo, foi meu dinossauro na infância. A primeira vez que andei num deles foi em São Paulo, eu era pequenininho, e fomos visitar uma amiga da minha mãe. Não me lembro de muita coisa além de que descíamos na Estação Vergueiro – lembrança que voltou viva  muitos anos mais tarde e me deu um embrulho no coração. E que fomos a uma casa onde fiquei lendo Geraldão. Depois, desenhei linhas de metrô para Campinas minha infância e adolescência inteiras, dando nomes a estações e cores às linhas. Achava, inclusive, uma vergonha pessoal viver numa cidade sem metrô. Uma cidade sem a Estação Taquaral, sem a Estação Laurão, sem a Estação Santo Antônio.

Eu queria pegar o metrô de Delhi logo, e foi logo mesmo, no primeiro sábado, que era o segundo dia na Índia. Segundo dia na Índia e eu queria: andar de metrô. Embarcamos  na Khan Market. Conectamos em Central Secretariat. Desembarcamos em Green Park, para uma caminhada meio sem rumo até o Deer Park, por onde chegamos pela primeira vez a Hauz Khas Village, onde rapazes sikhs fortões com o turbante da cor da camisa e grupos de jovens falando um hindi quase metade em inglês vão para comer, tomar coqueteis e dançar música eletrônica. E onde há uma ruína do século XIV. E lojinhas de roupas e objetos bacanas. Foi onde comprei meus cartazes antigos de filmes de Bollywood.

Mas de volta no começo. A estação Khan Market traz e leva os trabalhadores das lojas chiques do mercado super chique aonde os frequentadores chegam de carro – eu inclusive depois que comprei um e fui morar num bairro ironicamente sem estação de metrô. Nunca há muita gente nela fora dos horários de entrada e saída do trabalho.

Aglaa station Vishwavidyalaya hain!

Fui de carro à Delhi University na primeira vez. Nem era eu quem dirigia, porque não tenho nem carteira e não entendo por que um afogador se é o quê que a gente quer afogar num carro. Tem que passar por Old Delhi e fazer isso de carro é uma miséria. Nessa vez, em que fui me oferecer para eles aceitarem que eu enfiasse Português do Brasil no repertório dos meninos, foi assim. Depois, nunca mais. A estação é pertinho da Faculty of Arts, e se desse preguiça da caminhada, um dos riquixás de bicicleta me levava por 50 rupias até lá (50 porque eu pagava 5 vezes mais porque eu queria mesmo).

As estações são todas cheias de saídas para todos os lados. Quatro, seis, oito portões, mesmo as pequenas. Em algumas, se passar a catraca no portão errado tem que se virar na superfície mesmo pra achar onde era mesmo que queria ir. Em Vishwavidyalaya só fiz seguir a juventude para sair no buraco certo. Meu horário era o primeiro da manhã. Eu vinha com os estudantes, que dentro do metrô são estudantes dentro do metrô, e isso me dava saudades enormes do tempo em que fui um.

A linha amarela é uma das três mais movimentadas, então não era só estudante. Nas três conexões por que eu passava, uma violenta onda saía, uma violenta ressaca entrava. Muitos homens, muito mais que mulheres, em especial nas horas de pico, quando elas escolhem o vagão preferencial. Sempre me impressiona a postura corporal dos indianos: retinhos, elegantes, com a coluna no lugar. Parados no metrô parecem estar posando para foto. Os mais jovens, mais elegantes ainda. Eu seguia o rio de principezinhos e princesinhas até o edifício da Faculdade de Artes.

Era um bom prédio: dos primeiros, do início do século XX. Um dos edifícios que era parte da sede do Vice-Reinado. Placa com o nome do Lord Mountbatten na entrada. Pátios internos e gramado para que davam salas de aula e escritórios de departamento. As torres me foram inacessíveis, nem sei se é possível subir nelas. As salas de aula eram antigas, gastas, com móveis velhos. Em cada sala tínhamos uma mesa e um púlpito. Eu levava meu computador para mostrar vídeos e ouvir música com os meninos.

Meus alunos, aliás, me amigaram no Facebook e por isso descobriram que sou gay. Eles mesmos trabalharam a informação entre eles – passando por dizer eu merecia respeito porque professor e chegando ao merecimento de respeito porque todo mundo merece. No fim, tudo ficou bem, inclusive para outros LGBTIs nas turmas de Português.

Vishwavidyalaya se traduz: universidade. Uma vez disse a uma brasileira indomistificada o que era cada parte da palavra. Dá mais ou menos “morada do conhecimento do universo”. Ela ficou passada com a elevada espiritualidade da palavra cheia de conteúdo. É o mesmo conteúdo da palavra “universidade”, se for para brincar com as partes. Mas deixei a pessoa com seus sonhos. Cada um acende seus incensos diante do altar que mais lhe convém.

Aglaa station Kalkaji Mandir hain!

A linha violeta, quando passa a Estacão JLN Stadium, sai do subsolo para o elevado. Passa por Lajpat Nagar, que era o mercado preferido do Carlos para comprar coisas úteis para casa e também material de arte. Dali saíram alguns presentes que levamos pro Brasil – as bengals, principalmente. E meus amigos indianos professores de idiomas moram ali em volta. Depois vem Nehru Place, onde fica o restaurante bengali mais famoso e onde sem compra e se conserta todo tipo de eletrônico.

Nehru Place também é onde dá para ver o Templo de Lótus dos Baha’is,  que fica bem pertinho da próxima estação (aglaa station). Foi também um dos nossos primeiros passeios em Delhi, no domingo. Houve uma época na adolescência em que fui baha’i; foi quando soube que esse templo existia.

Como há estrangeiros prestando serviço no templo, as orações, que são declamadas quase como canto, são feitas em várias línguas. Uma a uma, ecoam por dentro da lótus. É muito bonito. Ouvi uma vez só. Quando me lembro, escuto os ecos.

 


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