The State I Am In

Hoje, um casal de amigos argentinos chamou a gente pra almoçar. Despedida. O restaurante italiano é dentro do centro cultural da Embaixada que inspira a comida do lugar. Ou a comida é  inspirada obrigatoriamente pela Embaixada, conforme as vinculações jurídicas de difusão da cultura (como se lasanha precisasse de difusão). O ponto é. Não, os pontos são: (1) era uma despedida dupla, de pessoas entre as favoritas na vida que vão pra Santiago do Chile no fim do mês; e (2) para entrar no centro cultural e restaurante dentro da representacão italiana é preciso mostrar documento, e, em território indiano estamos indocumentados temporariamente. A Indonésia detém nossos passaportes. Os passaportes e mais aproximadamente um quilo e meio de documentos diversos. Entreguei a carteira de identidade indiana. Ia dar a elza, como dei nas outras duas, mas aqui o amor pelo papel é muito maior. O governo ia me buscar onde fosse para reaver a carteira. Ou eu teria de passar dois dias na polícia me explicando. No fim, entramos no restaurante: Carlos mostrou seu RG; eu, meu certificado de alistamento militar. Uma segunda via. Não há documento que eu não tenha perdido ao menos uma vez.

E assim, dois selos e um carimbo, começo a escrever neste blog. É impressionante como o próprio vocabulário da burocracia é chato, de sonoridade complexa, cheio de sílabas desnecessárias. Mas ficar sem o passaporte e esperar sei lá que decisão de sei lá quem em que sala úmida com um ventilador verde que faz nheinnnnheinnnheinn e só esquenta mais o ambiente em vez de sacudir o ar é um bode. As coisas todas nas caixas no depósito, ansiosíssimas para pegar o trem pra Chennai (ou era Calcutá), onde vão começar a aventura no Oceano Índico, fazendo escala em Singapura para trocar de navio. E a gente num hotel, dividindo quarto com as duas gatas. Um hotel todo fifties. Se quisesse dava para se fazer de roqueiro. Meio rico, porque é um quatro estrelas (está saindo do meu bolso, contribuinte, não se assanhe). Mas não tem como cozinhar, então o sódio vai me matar depois desse adiamento de dez dias na partida. E estamos todos de bode. Acho que menos as gatas, que devem adorar a ideia de dormir na cama com a gente. 50% de aprovação da situação.

Corinha.jpg
Alguém está gostando da situação

É bode com coisa pequena. Então eu resolvi ouvir o Tigermilk, do Belle & Sebastian e escrever sobre esse Estado de Coisas. The State I am In. Que é esperando pra ir embora. Not on the top of the world again. Mas nem é ruim de verdade. Tem que pesar privilégio.

Por falar nisso, eu ia chamar o blogue de Manicômio Redondo. Mas aí fiquei com medo dos lugares de fala, das acusações de desprezo pelo desprivilégio; medo de morrer amarrado no pau pegando fogo com a Mafalda, do Quino, que foi quem vi dizendo a expressão pela primeira vez. Não sei se é uma pena de verdade ou se não ou se está certo ou errado. Do meu lugar de fada, digo que deste nome também. Tudo a ver. Sou atrasado, para horror do meu cônjuge, mas não é só isso.

Uma historinha: a primeira vez que fui para Trindade, no final dos anos 1990, estava muito louco de alguma coisa na Praia dos Ranchos. Era noite. E tinha esse cara não sei quanto mais velho que disse “você não viu isto aqui antes, antes, sim, agora que asfaltaram o Deus-Me-Livre” etc e como já era, acabou tudo, e eu nunca ia conhecer de verdade nada que preste. Depois ele tentou me beijar, mas escapei. Na época, pensei – só no dia seguinte, que é quando a gente pensa as respostas com métrica e rima – que eu hein eu preferiria se fosse pra dar uns pegas no cara de antes, não esse cara asfaltado, deus-me-livre. Nem era isso, de repente. Era horror a autoritarismo, mesmo. Essa gente do “você precisava ter visto isto aqui antes” é ditador da sensação. E, no caso específico, essa pessoa é da geracão cujos hábitos destruíram Trindade (que nem acho particularmente destruída) e outros tantos lugares de antes. Não que a minha não destrua. Acho que na verdade a marcha para a destruição completa não se detém. Não sei se é pessimismo ou Belle & Sebastian na orelha, mas agora é isso mesmo, agora acho que está acabando. Tudo.

E as pessoas estão muito chatas na Internet, mas em vez de fugir, resolvi retomar o blogue. Que tem esse nome por causa dessa sensação de ter chegado depois, de não ter visto como era isto antes, ou de ter perdido aquele auge que foi: quando a Revolução Sandinista era boa e você precisava ver que maravilha de projeto de sociedade, quando as gays da Bélgica faziam aquela festa maravilhosa que depois virou encontro de homens musculosos de barba que parecem todos primos, quando os Beatles estavam em Rishikesh e isto não era este shopping, quando as pessoas protestavam fervorosamente na frente da casa de Aung San Suu Kyi onde ela estava presa, quando a resistência resistia, quando paris não era cheia de turista, quando os Mutantes tinham a Rita Lee, quando tomate tinha gosto de tomate, quando tudo era uma aventura incrível.

(Teve a vez nas Corn Islands que foi diferente, mas outro dia conto, se me lembrar)

Hoje, descia o elevador com o Carlos neste hotel fifities. Cansados, de saco cheio da bestice da vida e da espera pelo visto e pela resposta do Ministério sobre a mudança da passagem. E eu disse: somos quase que uns roqueiros dentro do que é possível pro roquenrou hoje, quase no fim da segunda década do terceiro milênio do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não disse tudo isso, só uns pedaços. Ele, roqueiramente, rosnou e achou o comentário imbecil.

Life is never dull in your dreams, o disco aqui vai dizendo e acabando. Vou acabando também, consciente de que não terminei de dizer muito bem o que eu queria. Mas esse é o estado, isso é assim, e depois conto mais.

 


7 thoughts on “The State I Am In

  1. Essa expressão “antes era tudo mato” é tão corriqueira nesse centro-oeste, acompanhado da exortação “na minha época…” para desdizer pela autoridade(cabe certeiramente o correlato:autoritarismo) qualquer comentário que você diz e, pricipalnente, que diz sem sabe ro que diz e nem para quem o faz (quase um outro correlato: você sabe com quem está falando?). Não raro servem também para negar qualquer poasibilidade de mudança, por que no meu tempo não deu certo, por que esta dando certo assim, e assim por diante. Longe de querer o papel saudosista (porque eventualmente também o fazemos) e longe de arrogar-se como visionário de um novo tempo, e mesmo antes de tudo, vem no recalque expressões que minam qualquer possibilidade relação e potencialidade. É tão cansativo e desesperador. (Quase desabafo) .

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    1. Achei o comentário maravilhoso,e fico bem feliz por você sentir segurança para desabafar. Não estava pensando nessa situação quando escrevi, mas ela existe e é mais grave que a cagação de regra em que eu estava pensando.

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  2. Huguiiiiiiito!!!! Como é que vc tem um blog e eu só sei agora? Que bom, finalmente uma boa notícia nessa escuridão tremenda…. ❤ Beijos!!! (no próximo post comento conteúdo, hoje só vim fazer festa)

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